Opinião

Quando a logística falha

O chamado "novo modelo de transporte marítimo de mercadorias", que não é mais do que a passagem de escalas quinzenais para escalas semanais, é, à primeira vista, uma medida positiva, mas que não está a resultar, como fica demonstrado pelas inúmeras queixas que têm vindo a ser apresentadas por diversos sectores.

Ao contrário de regiões continentais, as ilhas não têm alternativas por estrada ou comboio. Qualquer falha num navio repercute-se imediatamente no abastecimento, enquanto o avião, para esse efeito, não constitui alternativa.

As ilhas, pela sua natureza fragmentada, enfrentam desafios logísticos muito específicos que afetam a economia, o abastecimento e a vida quotidiana das populações.

É o caso da Ilha Graciosa. Está sem serviço de porta-contentores desde o dia 18 de janeiro e o estado do mar não justifica, por si só, este incumprimento, até porque o navio abastecedor de combustíveis esteve depois disso, tal como o navio da empresa de tráfego local.

Não serve de nada acrescentar mais escalas se o serviço for ineficiente e descoordenado. São essas as razões que nos levam a criticar este ou qualquer modelo que funcione por impulso, preterindo ilhas em favor de outras sem qualquer justificação plausível.

Quando a logística falha, o efeito é imediato e visível. Faltam produtos essenciais no comércio local e surgem as queixas de empresas, famílias e de setores que estão muito dependentes dos transportes, como é o caso da agricultura, que vê, constantemente, o produto do seu trabalho desvalorizado devido à ineficiência de um serviço de primordial importância para as nossas ilhas.

Tudo isso leva-nos à perceção de isolamento e desigualdade territorial. É mais uma pecha na cada vez mais enfraquecida coesão regional.

E não me venham com a conversa que isto é pôr ilhas contra ilhas. É simplesmente um alerta ao Governo para que se meta na coordenação desta logística e não se desculpe com dores de crescimento, como ouvi recentemente, porque um ano e um mês já basta e não justifica estas falhas constantes.

Prometeram-nos estabilidade no transporte marítimo de mercadorias, mas esqueceram-se de nos avisar quando começava.

Quando foi apregoado, o dito “novo modelo” soava a perfeito, mas há um pequeno detalhe: não funciona.